Dia-a-Dia, Vamos Falar Sobre
18 dez 2015 • Por Giu Menezes

O osteossarcoma, a endoprótese e a Giu =)

Muita gente que me conhece e sabe que eu passei por todo o tratamento contra o câncer me pergunta como foram as sessões de quimioterapia, a cirurgia, a adaptação à prótese e etc. Eu não tenho problema nenhum em conversar sobre isso, mas sinto que algumas pessoas ainda tem um certo receio e vergonha de me perguntar, achando que pode me chatear, sabe?

Pensando nisso, desde que comecei o blog já tinha considerado contar algumas coisas, porque acho que além de curiosidade de saber como é, também é informação para quem não faz a mínima ideia. Eu só não sabia como fazer isso, porque achei que contar o dia-a-dia do tratamento poderia ser meio cansativo, então acho que vou fazer por assuntos. Já contei aqui que já faz 7 anos desde que operei e aqui sobre toda a fase de ficar sem cabelo. Hoje pensei em contar um pouco sobre como é a vida com a endoprótese!

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Não tenho fotos com as muletas, então essa representa a época 🙂

Antes de mais nada, para deixar bem claro, eu tive um osteossarcoma de fêmur. Ou seja, um tumor ósseo que nasceu no meu fêmur (é o osso da parte da coxa) e foi crescendo em sentido ao joelho que acabou pegando um pouco das partes moles (parte de fora do osso, na altura do meu joelho direito). Uma coisa importante do meu diagnóstico foi que o tumor não era metastático, ou seja, não tinha em mais nenhum lugar do meu corpo, o que facilita MUITO na hora do tratamento, porque ele era considerado em fase inicial ainda. Tive que fazer sessões de quimioterapia e uma cirurgia para remoção da parte comprometida. Como ele tinha pego o final do fêmur, não existia a possibilidade de fazer um enxerto, que nada mais é do que retirar uma parte de osso de outro local e colocar onde precisava. Então, minha opção era a endoprótese. Entendam, como estava em fase inicial e eu respondi bem às primeiras quimios, não precisei ter a perna amputada, só foi retirada uma parte do fêmur e colocada uma prótese no lugar. O legal dessa minha prótese é que ela foi feita sob medida e é de fêmur e joelho, ou seja, ela que faz o movimento de dobrar do joelho, já que todos os meus ligamentos tiveram que ser retirados e só ficou a minha patela (ou rótula) no lugar, então é ela que me permite andar, sentar, viver normalmente!

Foi muita sessão de fisioterapia depois da cirurgia, porque imaginem, pra chegar no osso tem que mexer em tudo que vem antes né, pele, músculos, tem que tirar do lugar mesmo, então quando eu acordei da cirurgia (não queiram me ver voltando da anestesia, eu não paro de falar, hahahahaha) eu estava com a perna totalmente esticada e só poderia começar a mexer na fisio mesmo. Aí começa o processo de aprender a dobrar de novo (cada grau conquistado era uma vitória misturada a lágrimas de dor. Acontece.), a andar, primeiro com duas muletas, depois com uma, até o dia que consegui me sustentar nela sem as muletas, por mais que ainda mancasse um pouco. Isso aconteceu no Natal de 2008, quando a fisioterapeuta lá do GRAACC (foi onde eu fiz todo meu tratamento, mais pra frente conto para vocês!) disse que eu deveria passar as festas sem muletas 🙂

Quem já passou por fisioterapia por qualquer motivo sabe, é um processo que demora, mas que no final vale muito a pena. E eu fazia direitinho, mesmo doendo, e quando tava em casa minha mãe me ajudava nos exercícios que a fisioterapeuta passava para agilizar o processo. Aprender a dobrar foi de fato o mais dolorido porque o corpo da gente cria fibras musculares, então eu meio que precisava quebrar essas fibras para continuar dobrando, para depois elas crescerem de novo (Giu durante a fisioterapia: “Lili, eu quero muito te apertar pra descontar minha dor, mas se eu fizer isso eu vou te machucar porque tá doendo muito” louca, eu sei hahaha). Deu certo! Hoje eu dobro tudo o que a prótese permite (cerca de 110° eu acho), o que me leva ao próximo ponto.

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Pilates = amor <3 haha

Ter uma endoprótese hoje é ter uma vida quase normal. Por que quase? Porque tem limitações sim, normal. Primeiro, é um corpo estranho, e por mais que eu não tenha tido rejeição (pode acontecer) é uma área sempre mais quente que o outro joelho, como se meu corpo estivesse sempre pensando se combate isso ou não, sabem? A prótese pode quebrar, então tem que tomar cuidado, principalmente com quedas; eu sinto dor quando esfria e não posso fazer nada de impacto e nem que rotacione o joelho no próprio eixo. Além disso, a prótese tem um prazo de validade, então um dia eu vou ter que trocar, mas a estimativa é grande, então cuidando direitinho, pode demorar uns 20 anos depois da cirurgia. Ah sim, eu também fiquei com 2cm de diferença entre uma perna e outra (por isso eu sempre digo que tenho 1,65m de altura. HA! :D) e no começo eu usava uma palmilha no tênis para andar, mas em sapatilha ou rasteirinha não dá né, então fui aprendendo a andar sem ela e hoje quase não me faz falta!

Falando de modo prático sobre o que não posso fazer, como já disse, nada de impacto, ou seja, correr está fora de cogitação (ainda bem, porque vocês nunca me viram correr e jamais terão essa visão horrível na frente hahaha), aulas como jump, step também. Bicicleta é algo engraçado, eu perguntei pra minha fisio lá do GRAACC “Lili, eu posso andar de bicicleta?” ao que ela respondeu “Ergométrica, né?” e eu fiquei tipo, oi? A bicicleta em si não é o problema, o risco de cair, sim. Risquei da lista.

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Só queria dizer que não é fácil. haha

Em compensação eu posso nadar, posso caminhar com cuidado, posso fazer pilates, cama elástica. Posso sim andar de salto, por exemplo, mas tudo sempre respeitando meus limites de conforto e dor. Preciso sim fortalecer sempre a minha musculatura e o pilates me ajuda bastante, já que nunca gostei de academia. E notei que preciso mesmo cuidar disso quando lesionei meu músculo da coxa ano passado porque achei que aguentava uma caminhada mais pesada e não deu conta – a ponto de não conseguir dar um passo sem quase cair – uma semana de repouso mais retorno às muletas até a lesão passar. Aprendi com isso, tenho que ir com calma.

E por que to falando tudo isso? Essa semana passei no cardiologista e ele me disse que, apesar de eu fazer pilates 2 vezes por semana e aquecendo 12min em cada aula na cama elástica, ainda assim eu poderia me considerar sedentária porque eu não fazia a quantidade ideal de exercício aeróbico por semana. Então, ele me aconselhou a caminhar, pelo menos, de 30 a 40min em dois ou três dias da semana. É uma das coisas que posso fazer e que vai ajudar no meu condicionamento físico e no fortalecimento da minha perna.

O que eu fico muito feliz em ouvir é quem não conhece minha história diz que se eu não contasse jamais imaginaria que eu tenho uma endoprótese, porque ando certinho! Claro, quando to muito cansada, eu acabo mancando, mas né, há um limite pra tudo!

Enfim, quis contar um pouquinho mais para vocês porque hoje voltei a caminhar! Sim, em plena sexta, mas se eu deixar pra outra semana vou adiando e adiando, então bora engatar isso já! Se vocês quiserem saber mais um pouco sobre essa fase, sobre o tratamento, eu vou contando aos poucos, mas não tenham vergonha de te perguntar! Eu acho legal essa curiosidade porque eu mesma sou assim e acho interessante compartilharmos informações e experiências, né? 🙂

Bom fim de semana, gente!

Beijos =)

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6 Comentários
  1. […] aí, o que acharam? Já pratico o Pilates há três anos e senti uma boa melhora de condicionamento físico, alongamento e postura, principalmente. Eu vivia […]

  2. maria daniele • 19/06/16 • 20h05

    Olá gostaria de saber mais sobre sua história de osteossarcoma.Meu esposo foi diagnosticado a pouco tempo.

    • Giu Menezes • 17/09/16 • 14h15

      Oi Maria, desculpa a demora na resposta!
      Então, já contei minha história aqui no blog nesse post e em outros… É uma fase complicada, mas tenho certeza de que vocês vão passar por isso e logo logo ele vai ficar bem!
      É difícil falar muito porque as situações sempre são diferentes pra cada um, cada pessoa reage de uma maneira né, mas pensem que isso é só uma fase mesmo e que depois que acabar é só alegria!
      Se quiser, contei um pouco mais nesse post também! http://www.giumenezes.com.br/dia-a-dia/ih-cortei-um-pouquinho-sobre-as-fases-do-meu-cabelo/
      Beijos! =)

  3. Eduardo • 14/09/16 • 00h41

    Ola, estou enfrentando um situação muito semelhante, fui diagnosticado com sarcoma de ewing e estou fazendo quimioterapia e logo vou colocar a endoprotese de femur e joelho, igual a sua e tinha muitas dúvidas sobre o pos operatório e como é a vida com a endoprotese!!! Muito
    Legal seu relato e quando tudo passar espero contar o meu tambem!!
    Quantas sessoes de fisio até andar normalmente? Quantos meses? No frio sente muito? Sente que a lerna com a endoprotese é mais pesada ou não? Abraço

    • Giu Menezes • 17/09/16 • 14h13

      Oi Eduardo! Legal que você achou o blog e gostou do meu relato, tudo a mais pura verdade viu? Força aí que logo tudo isso passa também e você vai estar 100% recuperado!
      Então, eu não lembro muito bem quantas sessões de fisioterapia eu fiz, e já adianto que fazer junto à quimioterapia exige um pouco mais da gente, mas dá tudo certo! Lembro que em mais ou menos um mês eu já estava sem as duas muletas, andando um pouco mancando ainda… Em uns 3 meses eu já comecei a dirigir curtas distâncias e em uns 4 meses já tinha voltado pra faculdade depois de acabar a quimio e já andava melhor. Só não pode parar com a fisio, porque faz toda a diferença!
      Sim, no frio parece que doi mais um pouco… Não é dor mesmo, mas um incômodo chato, de você saber que a prótese tá ali, mas nada que atrapalhe no dia-a-dia não. E não, não sinto a perna mais pesada. O que me disseram na época é que ela teria o mesmo peso do osso que estavam tirando, então eu não ia sentir diferença nessa questão!
      Ajudou?
      Volta pra me contar depois como tá sendo sua recuperação? Não que eu tenha dúvidas de que vai ser um sucesso!
      Beijos!

  4. […] a maior parte do diagnóstico infantil tem a ver com essa fase mesmo. Vamos pegar como exemplo o osteossarcoma, que é o que eu conheço mais: apesar de ter tido com 19 anos, eu ainda estava em uma fase que poderia desenvolver novas células […]